C2 - Estudo e Aprofundamento - Língua Portuguesa
Queridas professoras e queridos professores,
No nosso encontro presencial, refletimos sobre a importância do intercâmbio entre os estudantes nas situações de leitura por meio da professora para ampliação da construção de sentidos e para a formação de leitores literários.
Para aprofundar essa reflexão e sistematizar algumas contribuições à prática pedagógica discutidas, transcrevemos, a seguir, um trecho do texto A importância da rotina para a formação leitora, de Débora Samori, presente no material Percurso Formativo para 1° e 2° anos – Fascículo 3 do/a Professor/a: práticas de leitura e escrita de textos literários, do Ministério da Educação.
A partir da leitura da cena e das reflexões realizadas no encontro presencial, convidamos vocês a pensar sobre as seguintes questões:
- O que as falas das crianças revelam sobre os sentidos construídos durante a leitura?
- Quais intervenções da professora favoreceram o aprofundamento das interpretações?
- Como a professora apoia as crianças a justificarem suas ideias a partir do texto e das ilustrações?
- O que essa cena revela sobre a importância do intercâmbio entre leitores?
- Que aprendizagens leitoras podem ser observadas nas falas das crianças?
- Como essa situação pode inspirar o planejamento das leituras literárias em sua turma?
Trata-se do fragmento de uma situação proposta pela professora Alejandra Paione a suas crianças do 1º ano. Essa transcrição de cena ocorreu após a leitura do livro-álbum O túnel, de Anthony Browne. Segundo a resenha da editora, o livro narra a história de dois irmãos muito diferentes entre si, cuja relação se transforma após atravessarem um túnel misterioso. A obra destaca-se pela potência das ilustrações, pela construção simbólica da narrativa e pelas múltiplas possibilidades de interpretação.
Contextualização
A atividade foi realizada com uma turma de 1º ano. Diariamente, a professora destinava um tempo da rotina para compartilhar a leitura de contos e outros gêneros literários, abrindo espaço para o intercâmbio entre as crianças. O propósito didático era formar leitores e leitoras de literatura, capazes de construir sentidos cada vez mais elaborados sobre as obras lidas.
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Agustín: Essa é a parte quando a irmã do menino que deixou o livro aí, quando ela entrava aí (referindo-se à ilustração da capa do livro, a mesma que aparece em uma de suas páginas).
Professora (P): Essa é uma passagem da história, disse Agustín.
Milly: Ela quis salvá-lo, porque sabia que era o irmão... essa estátua.
P: Escutaram o que a Milly disse?
Crianças: Sim!
P: Ela está recordando essa passagem (folheando o livro). Vamos ver a passagem que ela está citando...
Criança: Essa parte! (diz um dos colegas, quando a Professora chega à página que procura).
P: O que você nos dizia? (dirigindo-se a Milly).
(Uma das crianças responde): Ela estava contando que era o irmão.
Milly: Ela gosta muito dele, mas ele não gosta dela. Mas ela abraçou ele quando chegou e ele estava transformado em estátua. (Milly aponta para as ilustrações e retoma o processo de transformação do menino provocado pelo abraço da irmã, no momento em que ele deixa de ser uma estátua e volta a ser um menino).
P: Por que você acha que não se davam bem?
Milly: Porque eram diferentes.
P: Eram diferentes (repete a Professora, acenando com a cabeça).
Milly: Não eram iguais.
Lucas: Ela lia e sonhava; ele brincava com os amigos, gritava, saltava...
P: Vejam, Lucas está dizendo o que também a Milly está dizendo: que não se davam bem. Isso ocorre antes da entrada no túnel, durante ou depois?
Criança: Muito antes!
P: Muito antes (faz um gesto com a mão esquerda levantada, levando-a para trás).
P: (Folheando novamente as páginas do livro, de trás para a frente, buscando localizar a passagem relacionada à caracterização dos irmãos): Olhem, o autor os apresenta como dois irmãos que...
Emmy: Não se davam bem.
P: (Lendo novamente um trecho do conto) “Era uma vez um irmão e uma irmã que não se pareciam em nada”. Olhem como o autor desenhou até mesmo o fundo dos irmãos (apontando para as ilustrações que apresentam fundos diferentes, atrás da menina há uma parede com flores desenhadas e do menino uma parede de tijolos).
Emmy: Ele é mais alto.
P: Bem... O corpo também... pois são diferentes... um é menino, a outra, menina... não? Bem, que outra diferença havia?
Emmy: Ela lia contos e o menino jogava bola.
P: Ela fazia leitura de... contos e ele preferia...
Emmy: Ele jogava bola com os amigos.
Emmy: Se odiavam porque o irmão engatinhava à noite até o quarto dela e depois a menina tinha medo.
Emmy: E depois entrou no túnel.
Várias crianças falam ao mesmo tempo e a professora pede para prestarem atenção em Carmen.
P: Vamos escutando, vamos escutando, porque ela falou sobre algo que aconteceu com a Rosa... (faz um gesto com a mão espalmada como se estivesse pedindo calma). Vamos ver! O que você dizia? (voltando-se para Carmen que foi interrompida).
Carmen: O irmão chamou ela de bebê porque ela tinha medo.
P: Ela tinha medo, disse Carmen.
Carmen: Tinha medo de escuro e o irmão sempre assustava ela.
Criança: Aí, quando ela entrou no túnel, me lembro que começou a pensar em bruxas, em gigantes...
Criança: Aqui (apontando para a ilustração de outra página) ele estava sonhando com o ódio da irmã.
[...]
Ariel: Porque, na primeira parte, a menina estava sozinha e o livro estava sozinho, depois estavam juntos, e a bola e o livro estavam juntos.
P: Vejam o que Ariel está dizendo (volta algumas páginas). Você está falando dessa parte? (mostra as folhas de guarda).
Ariel: Estão sozinhos. (referindo-se às folhas de guarda iniciais).
P: Vamos mostrar o final? (dirigindo-se a Ariel e virando todas as páginas de uma só vez).
Ariel: Agora estão juntos (referindo-se à folha de guarda do final, em que aparecem uma bola e um livro, juntos, no canto inferior direito).
P: Por que vocês acham que o autor fez essa representação?
Criança: Porque depois eles se juntaram e a bola e o livro se juntaram e termina.
P: Ou seja, para vocês isso representa o quê? (aponta para a ilustração em que bola e livro estão juntos).
Criança: Que são amigos, que os irmãos se juntaram.
Criança: Que se querem bem.
Criança: Que os irmãos se juntaram e depois os livros se juntaram porque ficaram juntos.
Criança: Que a bola e o livro se juntaram porque depois se gostavam muito (referindo-se aos irmãos).
P: A partir de que momento vocês perceberam que houve uma transformação entre eles?
Criança: Onde está pedra.
P: Onde ele está transformado em pedra? Vamos ver essa parte... (folheando o livro novamente).
Criança: Aí.
Criança: Aí.
P: Vamos falar um de cada vez! Emmy, Emmy.
Emmy: Na primeira, estava feito pedra; na segunda, estava se movendo; na outra, a cabeça estava como pedra e na outra, não...
P: E quem fez essa pedra se transformar em menino?
Emmy: A irmã.
Criança: Porque a irmã abraçou ele.
Criança: Porque se derreteu com o sol.
P: Vamos ver: ela disse que a irmã o abraçou e ele disse que foi a ação do sol. Vou ler.
Criança: Porque ela queria muito ele (antes de ouvir a leitura anunciada pela Professora).
P: (lendo outro trecho do livro) “Ela abraçou a figura dura e fria e chorou. Pouco a pouco a figura começou a mudar de cor e se tornou mais suave, mais delicada...”
Criança: Porque ela gostava dele.
Criança: Porque o irmão e a irmã não se queriam e por isso o irmão se transformou em estátua. E depois ficaram juntos.
P: Vamos escutando...
Criança: Depois a irmã abraçou ele.
P: O que você queria dizer? (dirigindo-se a um dos meninos).
Nicolau: Nestas duas partes daqui (mostra as primeiras ilustrações), está escuro, e na outra está meio escuro, e na outra, não...
Nicolau: Aqui está muito escuro (apontando para a primeira ilustração).
P: Ele está apontando algo que tem a ver com as ilustrações. Vocês acham que essas partes mais escuras e as mais claras têm algo a ver com a história? (Mostra as figuras com fundo escuro e as com fundos mais claros).
Emmy: Sim, porque abraçou ele.
Nicolau: Aí se vê tudo escuro porque o irmão estava como pedra. E quando está assim, é porque começou a tirar as pedras.
Criança: Professora, o que o Nicolau disse... (tentando explicar a fala do colega).
P: Ou seja: quando o irmão estava transformado em pedra, o bosque também estava escuro. Por que vocês acham que esse bosque estava tão escuro?
Criança: Porque não se gostavam e clareou porque passaram a se gostar mais (faz um gesto em que ambas as mãos se seguram, quando menciona a aproximação dos irmãos).
P: Vamos ver se pensam... Não sei... Vamos ver se pensam comigo...
Criança: O bosque se torna claro por causa dos irmãozinhos.
P: Como você se deu conta disso?
Emy: Porque quando a irmã abraçou o irmão, começou a clarear as plantas e as árvores. (enquanto explica, repete o gesto com as duas mãos que havia feito há pouco).
Milagro: Era como um feitiço que fez todo o...
Criança: ... o bosque.
Nicolau: Não vê que aqui (colocando o dedo em uma parte da quarta ilustração) tem algo rodeando? (contorna a imagem com o dedo, fazendo um círculo).
P: Olhem o que Milagro viu! Aqui é a parte escura (indicando as duas primeiras ilustrações) e aqui (indicando a última), quando ela o abraça e ele se converte novamente em João...
Criança: São como luzes!
Criança: Luzes amarelas.
Criança: Porque aqui se abraçaram e terminaram felizes.
Milagro: A parte escura tem a sombra mais escura.
P: A parte escura tem a sombra mais escura, sim. Ariel falou de um feitiço. O que te fez pensar que houve um feitiço aqui? (dirigindo-se ao menino).
Ariel: Quando abraçou ele e fez o feitiço.
Criança: O feitiço se rompeu.
Criança: Na selva.
Recomendação
Registre em seu caderno as reflexões produzidas a partir da leitura da cena e das discussões realizadas nos momentos de formação coletiva. Se possível, compartilhe também experiências vividas em sua sala de aula relacionadas às situações de leitura por meio da professora e às conversas literárias realizadas com as crianças.
Para aprofundar os estudos em interlocução com as perguntas sugeridas para reflexão, indicamos a leitura do texto na íntegra:
SAMORI, Débora. A importância da rotina para a formação leitora. In: BRASIL. Ministério da Educação. Alfabetização contextualizada e reflexiva: Percurso Formativo para 1° e 2° anos – Fascículo 3 do/a Professor/a: práticas de leitura e escrita de textos literários. Teresina: CEAD, 2025. p. 18-28.
Outra boa dica de leitura: Texto E depois de ler, fazer o quê?, de Maria Virgínia Gastaldi, publicado na Revista Avisa Lá. No artigo, a autora discute a importância das conversas literárias após a leitura e do intercâmbio entre leitores na ampliação da construção de sentidos pelas crianças.

