Olá!

Estamos no último módulo deste curso, Como aprimorar o diálogo entre a escola e familiares e responsáveis?

Até aqui você foi convidada/o a refletir sobre a potência dessa parceria; a compreender mais sobre como as reuniões com familiares/responsáveis podem ser mais dialógicas e participativas e a ampliar as possibilidades em relação à comunicação das aprendizagens dos/as estudantes. Neste último módulo trataremos da coerência entre o discurso e a prática da escola e dos familiares/responsáveis – o que, com frequência, é um desafio.

Como vimos nos três módulos anteriores, a prática do diálogo real contribui para o rompimento da cultura da queixa, enraizada tanto nas escolas como nas famílias. Para abrir este quarto e último módulo, vamos fazer uma reflexão sobre a importância de garantir a coerência entre discurso e prática, ou seja, entre o que falamos e o que fazemos. Desde o início, abordamos a importância de uma prática dialógica que, sabemos, não é algo simples nas escolas, até porque são espaços onde convivem pessoas diversas, com diferentes expectativas e perspectivas. Essa diversidade sucita disputas e conflitos que fazem parte da convivência e que, se bem trabalhados, podem enriquecer o ambiente escolar.

A fim de gerar uma primeira provocação, gostaria de destacar essa palavra – conflito – não em seu aspecto negativo, mas como algo positivo nas relações, no sentido de ampliador de possibilidades. É natural que em um espaço de convivência diária entre tantas pessoas haja discordâncias. O aspecto positivo dos conflitos está justamente na oportunidade de diversificar e ampliar pontos de vista. É preciso ressaltar, porém, que há algo essencial que precisa ser preservado, para manter a coerência: o objetivo comum, tanto de profissionais da escola como de familiares/responsáveis, de garantir a função social da escola: assegurar uma educação integral de qualidade.

Reuni abaixo alguns trechos de PPPs de escolas. Escolha entre as opções que práticas e ações essas escolas deveriam ter para fazer valer o texto de seu PPP:

Analise as alternativas propostas a seguir, assinalando verdadeiro ou falso para cada frase indicada como resposta.

Escola 1: 

“A escola é o espaço social responsável pela apropriação dos conhecimentos produzidos pela humanidade, isso inclui os saberes comunitários e do território. Neste sentido, é fundamental que o trabalho pedagógico seja organizado de forma integrada, respeitando e dialogando com a realidade social de cada estudante e sua comunidade. Ao acolher e trabalhar com as diferenças, a escola contribui para um ambiente inclusivo e democrático, em que o aprendizado é construído coletivamente e a experiência de cada estudante é respeitada como parte fundamental desse processo.”

Escola 2:

“Há necessidade, portanto, de se criar tempos e espaços para que professores, administradores, atendentes, funcionários, técnicos, pais, familiares/responsáveis reflitam sobre o trabalho desenvolvido com a criança e seu processo de desenvolvimento, o que não quer dizer que se deva efetivar uma prática de reuniões periódicas com os familiares/responsáveis para a entrega de pareceres finais, mas, ao contrário, significa criar oportunidades frequentes de troca de ideias, informações e sugestões. Nesse contexto, explicita-se a importância do Conselho de Classe, momento oportuno para identificar os avanços e as necessidades de intervenção pedagógica por parte das/os professoras/es e demais profissionais que atuam junto às crianças, bem como por parte da família.”

Escola 3:

“Organização de assembleias com representantes de classe, para que estes manifestem interesse da classe por temas a serem estudados, sugestão de melhoria da escola e temas de interesse geral, além de desenvolver competências necessárias à participação democrática, como saber ouvir, falar, pensar no bem comum, aceitar e/ou contra-argumentar a ideia do outro e ter mudanças de atitude e protagonismo.”


É interessante pensar em como nem sempre é trivial a coerência entre o discurso e a prática, não é? Outro ponto importante que tem sido centro de preocupações na educação tem a ver com a importância da valorização da diversidade e de uma educação antirracista e mais equitativa para todos e cada um dos estudantes.

Essa é uma discussão cada vez mais presente no espaço escolar, mas é preciso questionar se as ações da escola são coerentes com essas preocupações. Por exemplo: a escola tem conhecimento da representatividade de estudantes negras/os (pardos e pretos)? Estudantes negras/os se sentem representadas/os no espaço escolar? Existe valorização das contribuições sociais e culturais dos povos africanos, afrobrasileiros e indígenas no currículo?

A preocupação com a equidade racial é fundamental, mas é preciso integrar uma noção ampla de equidade que olha para dinâmicas e relações de gênero, a efetiva inclusão das/dos estudantes com deficiências e as questões socioeconômicas. Isso se revela no espaço: existem brinquedos/filas e/ou lista de nomes de meninos e meninas? As atividades de educação física têm práticas separadas para meninos e meninas? Estas atividades são adequadas para estudantes com deficiência em suas particularidades? Existe uma preocupação com o uso de vocabulário capacitista? O valor cobrado para as excursões ofertadas pela escola é possível para todas/os as/os estudantes?

 Na página 131 do livro Diálogo escola-família (Perez, 2019) há um quadro sobre dados da diversidade, fundamentais para lidar com diferentes situações do cotidiano escolar, quando falamos de meninas e meninos rotulados, que sofrem bullying e processos discriminatórios por suas diferenças. Vale dar uma olhada para refletir com sua equipe sobre a situação dessas questões na sua escola.


 Resumindo:

● O bullying e os processos discriminatórios são ainda muito frequentes e tem consequências devastadoras nas interações entre as/os estudantes, e, portanto, também nas aprendizagens.

● Pessoas pretas e pardas apresentam um índice maior de analfabetismo. Existem diferentes definições. Adotaremos aqui a do site do Inaf (Indicador de Alfabetismo Funcional). Analfabeto: corresponde à condição dos que não conseguem realizar tarefas simples que envolvem a leitura de palavras e frases ainda que uma parcela destes consiga ler números familiares (números de telefone, preços etc.)

Taxas de distorção idade-série e evasão escolar são maiores para estudantes negras/os, enquanto que indicadores sobre aprendizagem adequada é maior entre estudantes brancas/os;

● Há diferenças de rendimento entre meninos e meninas em função de um olhar da escola: há maior investimento em leitura para as meninas e em matemática para os meninos;

● Em relação a estudantes que apresentam alguma deficiência, os dados mostram que, embora as matrículas tenham aumentado, a inclusão ao longo da trajetória diminui, o que gera abandono escolar.

Esses dados revelam o quanto precisamos, como escola, garantir a equidade de modo a possibilitar condições para todas e todos. É preciso trazer à tona as diferenças a fim de respeitá-las; falar sobre a essas temáticas para que possamos transformar os dados. O livro Direção para os novos espaços e tempos da escola (CEDAC, 2022), traz muitas contribuições para se pensar em uma gestão afirmativa, ou seja, que garanta o exercício da equidade de forma a dar visibilidade às diferenças que, como vimos antes, são enriquecedoras para os processos de aprendizagem.

Destaco a seguir alguns pontos que estão no capítulo 2 , “Gestão escolar afirmativa”:

● Em primeiro lugar, a equidade está prevista em Lei:

Salvo os papéis das políticas municipais, estaduais e/ou federais, a gestão escolar – como conjunto de agentes que organizam e coordenam a implementação do PPP –, quando em diálogo com a perspectiva democrática e da Educação Integral, deve se responsabilizar pela centralidade da/do estudante e incorporar suas demandas ao currículo, na organização dos espaços e tempos e na atuação dos diferentes atores, assegurando a aprendizagem e o desenvolvimento de todos. Esse compromisso está previsto em nossa legislação (p. 54).


●  O capítulo também discorre sobre a importância de dar visibilidade às diferenças, de respeitá-las e de promover ações equitativas reconhecendo que não partimos do mesmo lugar – o que é diferente tem de se apoiar no princípio de igualdade. Pensando em uma escola que educa sujeitos de forma integral, pensar e atuar intencionalmente sobre o racismo faz parte dessa ação:

Uma gestão escolar antirracista, conforme aponta Bel Santos Mayer (2019), se compromete com o enfrentamento ao racismo “promovendo ações que favorecem que as pessoas saiam da omissão, da negligência e do silêncio diante das discriminações e desigualdades raciais” e com a “promoção da igualdade, com práticas cotidianas que convocam para a alteração da realidade, por meio da mudança de olhar e de novos saberes sobre a história e cultura afro-brasileiras” (MAYER, 2019, p.66) 

 ●  Por fim, recomendo o podcast deste capítulo, que aborda uma gestão que trabalha por uma educação integral antirracista:


A coordenadora da Roda Educativa, Alessandra Tavares, também autora do capítulo “Gestão para a Equidade”, fala sobre “educação antirracista e o reconhecimento da escola como espaço de diversidade e inclusão de todos e todas, abordando também os desafios que diretoras e diretores enfrentam para assegurar um ambiente escolar inclusivo com respeito à diversidade.” 

(Retirado da descrição do episódio no Spotify). 

Diante do estudo anterior, proponho o seguinte exercício: assinale as alternativas em que você vê mais oportunidades de ações coerentes com o discurso de uma gestão escolar dialógica, democrática e equitativa:

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